
Há tradições que não precisam de ser explicadas.
Precisam de ser vividas.
Em Évora, o ano começa a ouvir-se antes de se começar a viver. Há uma noite em que vários grupos percorrem a cidade a cantar, parando em largos, atravessando ruas onde o som ecoa mais do que a luz.
Chamam-lhe Cantos de Janeiras, mas na verdade é outra coisa, é um gesto colectivo. Um costume antigo onde se canta para desejar, para agradecer, para marcar o início de mais um ciclo.
E as vozes, quando se juntam, criam uma espécie de abrigo invisível sobre a cidade.
Durante algumas horas, Évora abranda.
O ruído desaparece.
Ficam as vozes, os passos, os sorrisos de quem pára para ouvir.
Cantar as Janeiras é isto,
não é recordar o passado.
É trazê-lo para o presente, uma vez por ano, para que a cidade se lembre de si própria.
E quando o último grupo se afasta e as ruas voltam ao silêncio, o ano já não começa vazio.
Começa acompanhado.





















