
Existem lugares que encontramos porque os procuramos. E há outros onde simplesmente decidimos parar.
Pedrógão foi um desses lugares.
No concelho da Vidigueira, entre a planície, o olival e a proximidade do Guadiana, encontramos uma pequena aldeia onde o branco das casas contrasta com o vermelho dos telhados e com uma paisagem que, vista do céu, parece prolongar-se muito para além da povoação.
Foi precisamente entre o chão e o céu que procurei fotografá-la.
Primeiro pelas ruas. Depois através dos pequenos pormenores que contam a história de uma terra. E, finalmente, do ar, para perceber como Pedrógão se encaixa na imensidão do território que a rodeia.

Uma aldeia construída à volta da sua praça
É no centro de Pedrógão que encontramos dois dos edifícios que mais imediatamente chamam a atenção.
De um lado está a Igreja Paroquial de Pedrógão, identificada na documentação oficial como Igreja de São Pedro e incluída no património arquitetónico de interesse do concelho da Vidigueira.
Quase em frente encontramos um edifício bastante diferente.
É a Capela de São Francisco, também conhecida como Capela da Venerável Ordem, à qual está associada a inconfundível Torre do Relógio.
A documentação patrimonial municipal situa a capela nos séculos XVIII/XIX. A construção primitiva é apontada para meados do século XVIII, embora a imagem que hoje domina a praça resulte em grande medida de uma intervenção posterior.
E basta olhar para a fachada para descobrir quando aconteceu.

1901
A data aparece por baixo do relógio e volta a surgir no medalhão existente sobre a entrada, acompanhada pelos nomes dos elementos da comissão executiva responsável pela obra.
É um daqueles pormenores que gosto particularmente de fotografar.
Porque deixa de ser apenas um edifício antigo. De repente temos uma data, nomes e pessoas que, há 125 anos, fizeram parte da transformação daquele lugar.
Uma capela que já foi muito mais do que uma capela
Talvez uma das histórias mais curiosas de Pedrógão esteja precisamente dentro destas paredes.
Ao longo da sua existência, o edifício teve diferentes funções. A documentação do Arquivo Municipal da Vidigueira regista que a Capela da Venerável Ordem Terceira de São Francisco serviu também como teatro, cantina, escola e casa mortuária.
Poucos edifícios conseguem resumir tão bem diferentes momentos da vida de uma pequena comunidade.
Religião, educação, cultura, alimentação e até a despedida dos seus habitantes passaram, em diferentes épocas, pelo mesmo espaço.
Hoje é sobretudo a Torre do Relógio que prende o olhar.
Branca, amarela e cinzenta, ergue-se sobre os telhados de Pedrógão e continua a ser um dos elementos mais facilmente reconhecíveis da aldeia.

As pedras de Pedrógão
Mas houve outro elemento que me chamou particularmente a atenção enquanto caminhava pelas ruas.
A pedra.
Não pequenas pedras utilizadas na construção das casas, mas enormes blocos que parecem simplesmente ter permanecido onde sempre estiveram.
Há lugares onde as povoações parecem ter sido construídas depois de transformar completamente a paisagem.
Aqui, em alguns pontos, parece ter acontecido o contrário.
As casas adaptaram-se à pedra.
Muros encontram rochedos. Ruas passam junto deles. Construções terminam onde começam enormes blocos de granito.
São imperfeições que tornam estes lugares únicos e que nos recordam que muito antes de existir uma rua, uma casa ou sequer uma aldeia chamada Pedrógão, aquela paisagem já ali estava

E depois subi
Há uma altura em que fotografar uma terra a partir do chão já não chega.
Subi o drone.
E Pedrógão mudou.
As ruas começaram a desenhar formas entre as casas. A igreja e a Torre do Relógio passaram a fazer parte de um conjunto. Os telhados transformaram-se numa mancha avermelhada rodeada pelo amarelo e pelo verde da paisagem.
E percebe-se melhor aquilo que define tantas pequenas aldeias do Alentejo.
A ligação ao campo.
Não existe propriamente uma fronteira abrupta entre a aldeia e a paisagem. As últimas casas acabam e começam os terrenos agrícolas.
O olival é uma presença marcante neste território. Aliás, a agricultura continua profundamente associada ao concelho da Vidigueira, onde a vinha e a oliveira são identificadas entre as culturas predominantes.
Do céu, essa relação torna-se evidente.
Pedrógão parece uma pequena ilha branca e vermelha pousada no meio do campo.
Parar também faz parte da viagem
Talvez Pedrógão nunca seja o destino de milhares de pessoas.
E talvez seja precisamente isso que torna importante fotografar lugares assim.
Porque conhecer o Alentejo não pode significar apenas visitar Évora, Monsaraz, Marvão ou algumas das localidades que aparecem repetidamente nos roteiros turísticos.
O Alentejo também está nestas terras.
Está num banco encostado a uma parede branca.
Numa placa de rua feita em azulejo.
Num relógio que continua sobre uma praça depois de mais de um século.
Num rochedo que ninguém retirou para construir uma casa.
Nos olivais que começam praticamente onde acabam as ruas.
E numa placa antiga à entrada onde se lê simplesmente:
PEDRÓGÃO.
Foi por isso que parei.
E foi por isso que fotografei.
Porque este projeto também existe para isto: guardar a memória dos lugares que tantas vezes atravessamos sem parar para os conhecer.
📍 Pedrógão — Vidigueira, Beja
📷 365 Days in Alentejo






