
Há momentos que ficam guardados na memória sem data exata. Sabemos que aconteceram, lembramo-nos da sensação, da luz, do ambiente… mas o calendário perdeu-se algures no tempo.
No início dos anos 2000, num desses dias que já parecem pertencer a outra era da fotografia, fotografei em analógico um encontro inesperado no coração de Évora.
Vários Ferraris estavam estacionados junto ao imponente Templo Romano de Évora, criando um contraste quase surreal entre dois mundos separados por mais de dois mil anos de história.
De um lado, as colunas romanas, sólidas, silenciosas, eternas.
Do outro, máquinas italianas desenhadas para velocidade, paixão e espetáculo.
O cenário era único.

A pedra antiga refletia a luz quente do Alentejo enquanto as carroçarias vermelhas brilhavam sob o sol. Turistas e curiosos aproximavam-se lentamente, observando de perto aquelas máquinas que normalmente só se veem em revistas ou filmes.
E ali estavam elas, paradas, quase respeitosas perante a monumentalidade do lugar.
Naquele tempo, fotografar era diferente. Cada disparo contava. Não havia ecrãs para confirmar o resultado, nem centenas de imagens para escolher depois. Havia apenas a confiança no olhar, na luz e na película.
As fotografias que ficaram desse dia são mais do que registos de carros de luxo. São fragmentos de um momento improvável em que história antiga e engenharia moderna partilharam o mesmo espaço.
O Templo Romano já viu passar séculos, impérios, guerras e gerações inteiras.
Mas naquele dia viu também algo improvável: um encontro entre a elegância intemporal de Roma e a paixão automóvel de Maranello.
E talvez seja exatamente isso que torna Évora tão especial.
Uma cidade onde o passado não desaparece, apenas continua a receber novas histórias.






