
No final do ano passado fotografei um jogo de rugby entre o CRE e o GD Direito B.
Mas esta não foi apenas uma cobertura fotográfica desportiva.
Foi uma experiência com o tempo.
Levei comigo a Canon EOS 3 e um rolo fotográfico que já tinha ultrapassado o prazo de validade há mais de duas décadas. Um daqueles rolos que ficam esquecidos numa gaveta, sobrevivendo ao passar dos anos como pequenos artefactos de outra era da fotografia.
Fotografar com filme vencido é sempre um território desconhecido.
Não há controlo absoluto. Não há garantias. Há apenas expectativa.
E foi exatamente isso que aconteceu.

As cores surgiram alteradas, com tonalidades imprevisíveis. O contraste tornou-se irregular. O grão ganhou presença, não como ruído, mas como textura física, quase palpável. Algumas imagens parecem ligeiramente desbotadas, outras densas e profundas, como se o próprio tempo tivesse interferido no processo químico da memória.
O jogo decorreu com intensidade, ritmo e energia, como qualquer partida de rugby. Movimento constante, contacto físico, esforço visível em cada jogada. Mas quando essas ações passaram pelo filtro de um filme envelhecido, algo mudou.
As fotografias deixaram de ser apenas registo documental.
Transformaram-se em vestígios.
Há nelas uma sensação estranha de distância temporal, como se o jogo tivesse acontecido muito antes do momento em que realmente foi jogado. Como se estivéssemos a observar recordações recuperadas de um arquivo esquecido.

O filme fora de prazo não degradou apenas a imagem.
Transformou a perceção do momento.
Os tons irregulares, o grão pronunciado e a imprevisibilidade cromática criaram uma estética que não pode ser replicada digitalmente com verdadeira autenticidade. É o resultado de química real, envelhecimento real e tempo real a agir sobre o suporte fotográfico.
E talvez seja isso que torna estas imagens especiais.
Não mostram apenas um jogo.
Mostram o encontro entre dois tempos diferentes, o instante em que a fotografia foi captada e os vinte anos que o filme carregava silenciosamente dentro de si.
No 365 Days in Alentejo, este trabalho representa mais do que desporto ou técnica fotográfica. Representa a ideia de que a imagem pode ser moldada não só pela luz… mas também pela passagem do tempo antes mesmo do disparo acontecer.
Estas fotografias não registam apenas movimento.
Registam memória em estado químico.






