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Entre silêncio e motores. O nascimento da motonáutica no coração do Alentejo

Em 2003 ou 2004, não tenho a certeza do ano correcto, quando o grande lago ainda era uma novidade recente na paisagem alentejana, tive a oportunidade de fotografar uma das primeiras provas de motonáutica realizadas na Barragem do Alqueva, na zona do Campinho.

Na altura, tudo ainda parecia experimental. O Alqueva era sobretudo silêncio, escala e horizonte. Uma imensidão de água calma, quase imóvel, rodeada pela secura habitual da terra alentejana. Um lugar que transmitia quietude, até ao momento em que chegaram os barcos.

O contraste foi imediato.

O som dos motores começou por ecoar ao longe, espalhando-se pela superfície lisa da água. Depois vieram as acelerações, as curvas fechadas, os rastos brancos desenhados na superfície escura do lago. A paisagem, que normalmente respira devagar, passou subitamente a vibrar com velocidade, energia e tensão competitiva.

Fotografei tudo em película, como se fazia então. Levei comigo a minha Canon EOS 5 e dois tipos de filme que ainda hoje recordo com nitidez: Kodak 160 NC, com a sua suavidade cromática e equilíbrio tonal, e Fujifilm Superia 100, mais vivo, mais directo, quase mais eléctrico, perfeito para acompanhar o ritmo da água rasgada pelos cascos.

Cada disparo era pensado. Não havia visor traseiro, nem confirmação imediata. Apenas intuição, experiência e a sensação de estar a registar algo novo, não apenas um evento desportivo, mas uma fase inicial da vida do próprio Alqueva.

O lago ainda estava a descobrir a sua identidade. Irrigação, turismo, lazer, e também desporto motorizado. A motonáutica mostrava que aquele espaço gigantesco podia ser palco de movimento, espectáculo e velocidade, sem perder a sua escala monumental.

Lembro-me do calor, da luz intensa reflectida pela água, do cheiro a combustível misturado com ar seco. Lembro-me das pessoas na margem, a observar com curiosidade algo que não era ainda habitual naquele território. E lembro-me sobretudo da estranheza bonita daquele contraste, motores potentes no meio de uma paisagem que sempre pertenceu ao silêncio.

Hoje, ao rever essas fotografias, não vejo apenas barcos em corrida. Vejo um momento de transição. Um tempo em que o Alentejo começava a integrar uma nova presença, a água em abundância, e tudo o que ela tornaria possível.

Foi um dia de velocidade sobre um lago jovem.
Um encontro entre tradição paisagística e energia moderna.
Um instante em que o Alqueva mostrou que podia ser muitas coisas ao mesmo tempo.

E eu estava lá, a fotografar em filme, a guardar um dos primeiros sinais dessa transformação.

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