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Quando o nevoeiro tomou conta da Praça do Giraldo. Uma noite analógica em 2003

Em 2003, numa noite fria e densa de nevoeiro, a Praça do Giraldo transformou-se num cenário quase irreal. A cidade parecia respirar mais devagar, como se o tempo tivesse decidido parar por algumas horas.

Saí para fotografar com a minha Canon EOS 5, o tripé no porta-bagagens e um rolo de Fujifilm Superia 100 preparado para registar aquela atmosfera única. Fotografar em analógico era, e continua a ser, um exercício de presença absoluta. Não há ecrãs para confirmar resultados. Não há repetições infinitas. Cada fotograma é uma escolha definitiva.

O nevoeiro espalhava a luz em todas as direcções, suavizando contornos, apagando distâncias, criando halos à volta dos candeeiros. A fonte da praça parecia emergir lentamente de um plano de silêncio. A fachada da Igreja de Santo Antão surgia difusa, quase etérea. O nicho de Santo António parecia guardião imóvel daquela quietude suspensa. Até o edifício do Banco de Portugal assumia uma presença diferente, mais distante, mais silenciosa, quase intemporal.

A película a cores registava tudo com uma delicadeza que só o analógico consegue oferecer, grão subtil, transições suaves, cores que não gritam, mas respiram. Cada exposição era um diálogo entre luz, tempo e matéria. Cada disparo exigia espera, leitura do ambiente, respeito pelo instante.

Fotografar naquela noite não foi apenas documentar um lugar. Foi observar a transformação da própria perceção do espaço. O nevoeiro não escondia a praça, reinterpretava-a. Tornava familiar o que parecia desconhecido.

Rever hoje essas imagens é regressar a uma forma mais lenta de ver o mundo. Uma forma em que a fotografia não é apenas captura, mas experiência vivida. O analógico obriga-nos a sentir antes de registar. Obriga-nos a escutar o silêncio antes de disparar.

No 365 Days in Alentejo, estas fotografias recordam um tempo em que a cidade parecia suspensa entre presença e ausência, e em que a película guardou, pacientemente, a respiração de uma noite que nunca mais se repetiu da mesma forma.

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