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Melides tem livros de pedra: quando a cultura ganha peso e sai à rua.

A escultura “A Cultura Saiu à Rua (Num Dia Assim)”, do escultor Isaque Pinheiro, integra o conjunto de arte pública da freguesia de Melides, no concelho de Grândola, e materializa de forma muito concreta uma ideia essencial: tornar a cultura visível e acessível no espaço quotidiano.

A obra apresenta um conjunto de livros empilhados esculpidos em mármore, transformando um dos maiores símbolos do conhecimento humano, o livro, num objecto físico, sólido e duradouro. A escolha do mármore não é apenas uma decisão estética. É também profundamente simbólica. Trata-se de um material historicamente associado à permanência, à memória e à resistência ao tempo. Ao esculpir livros em pedra, o artista sugere que a cultura, tal como a matéria que a representa, deve permanecer, resistir e atravessar gerações.

Mas estes não são livros anónimos ou abstractos. Entre os volumes representados encontram-se referências reconhecíveis da literatura e do imaginário colectivo, como “Mensagem”, de Fernando Pessoa, ou “Alice no País das Maravilhas”, entre outros títulos que evocam diferentes formas de conhecimento, imaginação e identidade cultural. Esta diversidade reforça a ideia de que a cultura é múltipla: feita de pensamento, de poesia, de fantasia, de memória colectiva e de criação individual.

Ao reunir obras tão distintas num mesmo conjunto, a escultura constrói uma espécie de biblioteca simbólica ao ar livre. Uma biblioteca que não se percorre com as mãos, mas com o olhar e com a consciência do que os livros representam na formação das pessoas e das sociedades.

A colocação destes livros no espaço público é, talvez, o gesto mais significativo da obra. Fora de bibliotecas, escolas ou museus, os volumes tornam-se parte da paisagem vivida. Quem passa por eles encontra a cultura sem a procurar, ela está ali, integrada na rotina, no caminho, na experiência diária do lugar. É uma presença silenciosa, mas firme, que afirma que o conhecimento pertence a todos e deve existir no espaço comum.

Neste sentido, a escultura não representa apenas livros empilhados. Representa a partilha do saber, a continuidade da memória cultural e a democratização do acesso à arte e ao pensamento. É uma afirmação de que a cultura não deve estar confinada a espaços especializados, deve existir onde a vida acontece.

Em Melides, estes livros de mármore tornam-se assim um marco contemporâneo do território. Tal como os monumentos históricos testemunham o passado, esta obra testemunha o presente cultural da comunidade. Mostra que a identidade de um lugar não se constrói apenas com herança, mas também com criação activa e com a valorização do conhecimento.

“A Cultura Saiu à Rua” não é apenas o nome da obra — é a sua própria declaração. Em Melides, a cultura não está escondida. Está visível, acessível e solidificada em pedra, como parte viva da paisagem e da memória colectiva.

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