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Exposição ” A Casa” – Há casas que nunca deixam de falar.

A exposição “A Casa – Fotografia de Margarida Lagarto” abre-nos uma porta rara: a possibilidade de entrar, finalmente, num espaço que durante décadas pertenceu apenas à intimidade da criação artística.

A antiga casa-atelier de João Cutileiro, em Évora, é hoje revelada através do olhar sensível de Margarida Lagarto – não como um simples registo documental, mas como uma narrativa visual feita de silêncio, memória e presença. As fotografias mostram recantos, paredes, objectos e atmosferas que testemunharam quase quarenta anos de trabalho contínuo de um dos nomes maiores da escultura portuguesa contemporânea.

Mais do que mostrar um espaço físico, esta exposição permite compreender a relação profunda entre o artista e o lugar onde viveu e criou. A casa surge como extensão do pensamento, do gesto e do ritmo do próprio João Cutileiro. Cada imagem transporta a sensação de que ali o tempo não passou, apenas ficou.

Para mim, esta casa nunca foi apenas um edifício.

Lembro-me de ser miúdo, a caminho dos treinos de basquetebol no Juventude, e de abrandar o passo sempre que passava junto ao portão. Olhava para dentro do átrio e, muitas vezes, via o João Cutileiro de volta do trabalho. Não o conhecia pessoalmente, mas aquela imagem ficou gravada. O artista no seu território, rodeado pela matéria, pela rotina e pelo silêncio criativo.

Na altura não compreendia totalmente o que aquilo significava. Hoje, voltar a esse mesmo espaço, agora aberto ao público, é perceber que aquelas memórias fazem parte da identidade cultural da cidade.

A exposição integra-se também no contexto da Capital Europeia da Cultura Évora_27, marcando a primeira abertura pública da casa após a sua doação ao Estado. É um momento importante para Évora, não apenas pela obra apresentada, mas pelo gesto de partilha de um lugar que pertence à história viva da cidade.

“A Casa” não se visita com pressa.
Percorre-se devagar, como quem entra em casa de alguém com respeito. É uma experiência de contemplação, de escuta e de ligação ao passado recente da arte portuguesa, profundamente enraizado no Alentejo.

Aos eborenses, fica o convite claro:
vão ver esta exposição.

Porque esta casa faz parte da nossa paisagem emocional.
Porque muitos de nós passámos por aquele portão sem imaginar o que ali se criava.
E porque conhecer a nossa cidade também é entrar nos espaços onde a arte aconteceu.

Évora não vive apenas nas muralhas, vive nas casas que guardam histórias.

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